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Em 1986, o Departamento de Aviação Civil estava preocupado
com a situação da frota de aeronaves de instrução dos
aeroclubes brasileiros, constituída, em sua maior parte, de
aviões construídos nas décadas de 40, 50 e 60. Embora
estimados pelos pilotos, os veteranos Paulistinhas CAP-4 e
P-56C já se encontravam muito desgastados, obsoletos e
incapazes de suprir as necessidades dos Aeroclubes. Sem
sistema elétrico, sem rádio e sem qualquer recurso mais
avançado, sofriam cada vez mais restrições para voar no já
congestionado tráfego dos aeroportos brasileiros. A
necessidade de renovação e reposição da frota era urgente.
Infelizmente, não existia no mercado, à época, uma aeronave
de treinamento disponível para aquisição em grande
quantidade e por um custo viável. A Cessna havia encerrado a
fabricação de todas as aeronaves leves, a Piper ainda se
reerguia de seu processo de falência, e a Embraer estava
desativando sua linha de produção de aeronaves leves para se
concentrar na fabricação de aeronaves comerciais e
militares.
O DAC aventou a hipótese de reativar a fabricação dos
Paulistinhas, mas não houve interesse de nenhum fabricante.
A solução para o impasse estava na Argentina. Dois
fabricantes daquele país, Aero Boero e Chincul, tinham
condições de fabricar aeronaves de treinamento. A Aero Boero
sugeriu reativar a produção do modelo AB-95/115, que voou
pela primeira vez em 12 de março de 1959, e cujo último
exemplar havia sido fabricado em 1976. A Chincul podia
oferecer o modelo PA-18, último descendente de uma longa
linha de treinadores leves da Piper, fabricado sob licença.
A única proposta efetivamente apresentada, da Aero Boero,
foi considerada interessante. O fabricante poderia atender
um pedido de cerca de 400 aeronaves em curto espaço de
tempo, 5 ou 6 anos. Ademais, a proposta também era política
e economicamente interessante para os governantes José
Sarney, do Brasil, e Raúl Alfonsín, da Argentina,
interessados em uma parceria que viria a se tornar, mais
tarde, no Mercosul.
O DAC enviou 6 experientes instrutores de vôo civis e
dois oficiais da Força Aérea Brasileira para avaliar uma
aeronave disponibilizada pelo sr. Hector Boero, presidente
da Aero Boero, em Monteros, sede da fábrica. Embora fizessem
ressalvas quanto à ergonomia da cabine e quanto à baixa
potência de seu motor AVCO Lycoming O-235, de 115 HP,
avaliaram positivamente o avião.
O DAC deu sinal verde para a aquisição, a um preço
inicial de US$ 74 mil para cada exemplar. Várias unidades do
modelo AB-180, que Hector Boero oferecia no mercado, desde
1967, como avião de turismo leve ou agrícola, foram também
encomendados, com a finalidade de rebocar planadores nos
aeroclubes.
A fabricação da aeronave iniciou-se em 1987, e os
primeiros 5 exemplares foram entregues no início de 1988, no
Aeroclube do Rio Grande do Sul, em Belém Novo/RS. O DAC
convidou instrutores de vôo de vários Aeroclubes para
adaptação e padronização na nova aeronave. A intenção do
DAC, nessa época, era criar 5 grandes centros de formação de
pilotos, para substituir as centenas de aeroclubes
deficitários espalhados pelo Brasil, idéia que acabou não
sendo concretizada.
Com a chegada, até 1994, de quase 400 exemplares de AB-115
e AB-180, o DAC doou aos aeroclubes as veteranas aeronaves
de sua frota, uma heterogênea coleção de HL-1, CAP-4, P-56C,
PA-18, PA-20 e J-3, muitas das quais ainda operam em sua
função original. |
O Aero Boero em serviço
A substituição dos Paulistinhas pelos Aero Boero não
significou um grande avanço para a instrução de vôo. Para os
pilotos, mudanças bem-vindas foram a partida elétrica, o
intercomunicador e o rádio, mas, no geral, não houve grande
ganho de desempenho e nem acréscimo de equipamento mais
avançado. O Aero Boero, na verdade, é conceitualmente
obsoleto.Uma antiga solicitação dos instrutores de vôo
não foi atendida: que o avião de instrução pudesse realizar
algumas manobras acrobáticas básicas. Nesse aspecto, o Aero
Boero, classificado como Categoria Normal, era inferior ao
Paulistinha P-56C, o que obrigou o DAC a reformular o
programa de instrução, retirando algumas manobras do mesmo,
como o parafuso comandado. Os instrutores que foram avaliar
o avião na Argentina, entretanto, realizaram várias manobras
acrobáticas com o avião, inclusive tendo a bordo o Sr.
Hector Boero, e, dizem, que a aeronave somente não foi
homologada para vôo acrobático porque o CTA pediu que o
fabricante entregasse 3 aeronaves para avaliação, e o Sr.
Boero não concordou.
Desde o início de sua operação nos aeroclubes, o avião
tornou-se bastante polêmico. Havia entre os pilotos
suspeitas de fragilidade estrutural, e boatos, nunca
confirmados, de acidentes causados devido a isso. Outro
boato, sem fundamento, é o de que o avião tinha a cauda
pesada e era sujeito a entrar em parafuso chato. O avião,
efetivamente, tem um comportamento mais instável no solo que
os Paulistinhas, e alguns alunos chegavam mesmo a temer a
aeronave, preferindo voar em outros modelos.
O fato é que o avião tem um trem de pouso deficiente:
frágil, mal posicionado, bitola estreita e sem
amortecedores. Posicionado muito à frente do CG, dificultava
a manobra de levantamento da cauda durante a decolagem, além
de piorar a estabilidade no solo, especialmente com vento de
través. A bitola estreita, aliada à grande envergadura,
torna praticamente inevitável o choque das pontas das asas
com o solo, em um cavalo de pau, e a falta de amortecedores
provoca saltos no pouso. O maior problema é a fragilidade do
apoio das molas do trem na fuselagem, logo abaixo do assento
dianteiro. Caso esse apoio se quebre, as molas podem ferir o
ocupante do assento, geralmente o aluno.
A instabilidade no solo é uma característica inerente a
todos os aviões com trem de pouso convencional, mas, nesse
aspecto, o Aero Boero não é pior que outras aeronaves mais
bem afamadas, como os antigos Cessna 180. Os incidentes de
pouso com Aero Boero foram causados, em sua maior parte, por
excesso de velocidade na aproximação ou por habilidade
insuficiente do piloto (natural, pois se trata de um
treinador...).
Em vários aspectos, o Aero Boero é uma aeronave bastante
satisfatória: o piloto tem boa visibilidade para frente,
característica rara em uma aeronave de trem convencional. É
bastante dócil e estável em vôo, e muito didático e
previsível em qualquer tipo de manobra. Graças à grande
envergadura, tem uma boa razão de planeio (11:1). Mantêm a
autoridade de comando em baixa velocidade, e os estóis são
mansos, simétricos e bem advertidos. Ao contrário do mito,
não existe nenhuma tendência a entrar em parafuso chato.
Glissar um Boero é uma experiência interessante e
surpreendentemente agradável.
O desempenho da aeronave não é brilhante. Com 115 HP para
770 Kgf de peso máximo, não se poderia esperar muito. É
razoavelmente satisfatório nas decolagens e subidas, mas sua
velocidade de cruzeiro é baixa, apenas 90 mph. Levando-se em
consideração que a maior parte da vida útil de um Aero Boero
consiste em manobras básicas e toques-e-arremetidas, pode-se
considerar que a escolha do grupo moto-propulsor foi
adequada. Um aumento de potência traduzir-se-ia, muito
provavelmente, em aumento do consumo e aumento do preço da
hora de vôo para o aluno.
O motor escolhido, um AVCO Lycoming O-235C2, de 4
cilindros, 3,85 litros de cilindrada e 115 HP a 2800 RPM, é
um dos pontos altos do avião, apesar da baixa potência. Em
serviço, mostrou-se bastante robusto e econômico, resistindo
bravamente à difícil tarefa de instrução, repleta de
acelerações e desacelerações bruscas e outros mal-tratos.
Chega facilmente ao TBO de 2400 horas sem maiores problemas,
ao contrário dos Paulistinhas e Cessnas 150, que, com seus
frágeis motores Continental C-90 e O-200A, raramente atingem
o TBO intactos, na instrução de vôo.
Além dos trens de pouso, a maior deficiência do Aero
Boero está na ergonomia. Os assentos não são reguláveis, nem
em distância nem em altura. Os pedais de freio, de
calcanhar, são mal posicionados, e acionar a alavanca dos
flaps exige um bom contorcionismo do piloto. Pilotos muito
baixos ou muito altos encontram muita dificuldade. Embarcar
e desembarcar é uma tarefa difícil. Os comandos do avião,
ainda que precisos, são pesados, tornando a pilotagem um
tanto cansativa, especialmente na instrução.
Uma aeronave injustiçada?
Dezoito anos após sua introdução, os Aero Boero ainda são as
aeronaves-padrão de instrução nos aeroclubes, e milhares de
pilotos ganharam suas primeiras asas nesse avião. Apesar da
má fama, nenhum dos vários acidentes ocorridos pôde ser
atribuído à falha de equipamento.
A perda de aeronaves é quase inevitável na instrução
primária de vôo, mas as críticas relativas à falta de
segurança dos Boeros nunca se justificaram. O avião pode ser
pouco ergonômico, cansativo e desconfortável, mas não é
perigoso, caso seja conduzido dentro de suas limitações
operacionais e com responsabilidade.
O DAC, atualmente, está renovando a frota de treinadores
com o Aeromot Guri, cujas entregas já começaram, mas se
processam em ritmo muito lento. Os Guri são equipados com o
mesmo motor dos Aero Boero, mas têm 900 Kgf de peso máximo
na decolagem, definitivamente underpowered.
Como o DAC está em fase terminal, com a criação da ANAC,
não se sabe o que vai acontecer no futuro, nem com os Aero
Boero, nem com os Guri e nem com os aeroclubes. O fato é que
os Aero Boero remanescentes já sofrem com a falta de peças
de reposição, e falta de hélices e montantes de asa, por
exemplo, já podem confinar aeronaves no solo por muito
tempo, o que levou alguns aeroclubes a utilizar hélices
"falsas", de madeira, para continuar a usar o avião, pelo
menos até a próxima visita do INSPAC do DAC.
JONAS LIASCH FILHO - professor de aviação do Curso de
Ciências Aeronáuticas da
UNOPAR - Universidade Norte do Paraná, e do Aeroclube de
Londrina, tendo voado 12 anos nos aviões AEROBOERO.
Texto e Fotos: Jonas Liasch Filho. Aviação em
Revista. |