Confira entrevista com a 1ª Piloto de Linha Aérea e 1ª Piloto Comercial Sênior

Conversamos com a Comandante Lucy Lúpia, a primeira mulher a se habilitar como piloto comercial e piloto de linha aérea do Brasil.

Alegre e extrovertida, ao lado de um Embraer 175 da Trip e um Embraer 190 da Azul contou parte de sua luta para alcançar seu sonho.

Dentre as maiores dificuldades encontradas, acha que lhe faltou, “QI” (quem indica). Revelou a data de seu nascimento com uma condição que não fizéssemos conta para saber sua idade perto dela. Freqüenta vários eventos ligados a aviação, a suas custas.

Escreveu vários livros

Eu Quero Voar – O retrato de um preconceito
Vôo Proibido – Os apuros de uma pioneira
Sobrevivente – A Saga da 1ª Piloto de Linha Aérea
A História de Felipe Pinel
Sua Majestade o Q.I.

(Seus livros podem ser adquiridos através do e-mail cmtelucil@yahoo.com.br ou 21 – 2265-5802 ou 9964 – 1147).

Carioca, nascida no Grajaú em 07 de setembro de 1932, filha de Edmundo Pereira Balthazar e de Martinha Pinel Balthazar, teve 4 irmãos. Praticava o excursionismo e o alpinismo desde a adolescência, até que os trocou por uma outra paixão: o vôo.

Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Farmácia, exercia suas funções no Hospital dos Servidores do Estado. Em 1967, ao visitar o Aeroclube de Nova Iguaçu, com seu falecido marido Sieghardt, decidiu que também faria o curso de piloto. A intenção inicial era voar somente por esporte. A paixão, porém, colocou idéias em sua cabeça, como a de trabalhar profissionalmente, o que uniria dois interesses: ganhar dinheiro e se aprimorar cada vez mais na aviação.

Em apenas 3 meses foi aprovada nos testes de aptidão física, teórica e prática. Recebeu, então, o brevê (licença) de piloto privado. Continuou fazendo suas horas de treinamento no Aeroclube, até completar as 200 horas, para novamente submeter-se àquelas provas com a finalidade de tornar-se piloto comercial. Cumpriu nova etapa, perfazendo as 250 horas de vôo, sendo 40 de navegação (viagens), a fim de fazer-se instrutora de pilotagem elementar. Submeteu-se aos testes teóricos e práticos em duas aeronaves diferentes. As manobras de vôo foram no Paulistinha P-56 e no Fairchild PT-19, com algumas acrobacias. Existia até uma promessa de contrato da Escola Livre de Aviação que não se concretizou, porque esta encerrou, meses antes, suas atividades.

Habilitada a trabalhar como piloto comercial e instrutora de vôo, partiu para procurar emprego, sem imaginar quão sofrida seria sua busca na realização de seus ideais. Uma grande batalha movida por preconceitos, e até por perseguições pessoais, estaria a sua espera. O mercado de aviação sempre foi competitivo entre os homens. A chegada de um piloto-mulher seria uma ameaça, pois, além do tabu, haveria o risco de invasão de novos concorrentes no futuro: as aviadoras.

m 1973, efetuou testes teóricos e de capacidade física para piloto de helicóptero, sendo a 1ª mulher a ser aprovada nas categorias privado e comercial. Como não pode pagar as horas de vôo exigidas para o exame prático, porque eram caríssimas, deixou de ter mais essa opção na busca de um emprego. Havia recebido a promessa de financiamento de uma empresa, para pagar em vôos, mais não cumpriram o combinado.

Conseguiu voar por alguns anos sem vínculo empregatício em várias empresas, como a Pluma Táxi Aéreo, localizado no Rio e outras em São Paulo, Minas Gerais e em Brasília. Em 8 de Julho de 1970, no bimotor TWINN BONNANZA, de propriedade da Construtora Brasil (sediada em Belo Horizonte), foi consumado seu primeiro vôo comercial ao lado do comandante Dornelles.

Foi instrutora de pilotagem elementar no Aeroclube de Nova Iguaçu, em 1973, meses antes de ser contratada pela Líder Táxi Aéreo, cuja condição de ingresso, na época, era ser aprovada no psicoteste do NUISO. Nesta importante empresa, que possuía aviões e helicópteros, trabalhou dois anos, ganhando ótima experiência devido à grande freqüência de vôos.

Em 1975, ingressou na Top Táxi Aéreo e foi completando as exigências necessárias para habilitar-se à licença de piloto de linha aérea. Realizou os testes no CEMAL em 1973, o teórico no ano seguinte e o prático em 1976. Não recebeu a carteira (licença) apropriada, e sim a de piloto comercial sênior, de categoria inferior, em razão de a legislação ter sido mudada no curso de seu treinamento, com a retroatividade da Portaria, fato que a prejudicou de forma definitiva.

Tudo ficou mais difícil após a dispensa pela TOP Táxi Aéreo que se transformou em RIO SUL Transportes Aéreos Regionais, poucos meses antes de sua saída. Voou ainda como comandante na Companhia da Usina do Outeiro, de Campos.

Fez curso na Embraer, em São José dos Campos e tornou-se a primeira comandante de Bandeirante. As dificuldades surgidas nessa empresa foram enormes, pois lá havia simpatizantes e também adversários preconceituosos, inclusive na própria diretoria.

asou-se novamente em 1981, época em que iniciava o curso de Direito, que lhe daria mais subsídios, com a intenção de argumentar na luta por sua licença de piloto de linha aérea.

Até o ano de 1994, esteve em dia com sua habilitação técnica, uma vez que alugava aviões para as revalidações, até que se tornou inviável financeiramente.

Em janeiro de 2000, recebeu a licença de Piloto de Linha Aérea pela qual lutou por 24 anos. É a 1ª a ser concedida a uma mulher na América Latina.

Voou em 16 aviões monomotores, 18 bimotores e no turbo-hélice "Bandeirante" (EMB 110). Transladou de São Paulo para o Rio, e vice-versa, várias aeronaves do DAC. Uma delas, o Ypiranga PP-TJR, fez sua última viagem, pois destinava-se ao Museu Aeroespacial situado no Campo dos Afonsos (RJ) onde se acha exposto.

Informalmente, voou, assistida pelo Captain James Bruce, piloto de provas da Rockwell International, de Saint Louis, Missouri (USA), um jato de 13 toneladas, o Sabreliner de prefixo N75-A, em maio de 1976. A viagem em que comandou o vôo foi no trecho Rio-São José dos Campos e tinha como passageiros, toda a diretoria da Top Táxi Aéreo.

Permanece ativa nos meios aeronáuticos, freqüentando as festividades abertas ao público, como Feiras, Exposições e mantém convívio permanente com os colegas aviadores nos aeroportos.

Escreveu livros narrando suas experiências profissionais e, também a biografia de seu trisavô francês, Dr. Philippe Pinel, considerado o "Pai da Psiquiatria Moderna". Expôs suas obras literárias sobre aviação na BIENAL do livro, ocorrida no Riocentro (RJ) em 2001 e em 2003.

Helenio Lara