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Altair Coelho, um gaúcho de Pelotas,
engenheiro-inventor de 70 anos, que há meio século se
diverte imaginando formas de flutuar nos céus do Rio Grande
do Sul. Mal tinha colocado o cinto e me
ajeitado no banco do avião, recebi a ordem: "Segure o
manche". Firmei a alavanca junto à perna esquerda e fiquei
controlando os movimentos do piloto. Ele virou a chave, o
motor VW-Santana 2000 respondeu e o Guapo começou a deslizar
sobre a superfície de saibro vermelho. Chegamos na cabeceira
da pista, ele me olhou de soslaio, tomou o manche, deu mais
gás no motor e o nosso avião elevou-se suave. Decolamos, e
em 21 segundos a pista era uma referência rubra no meio do
pampa verde. Senti-me leve, feliz e poderoso, planando numa
imensidão azul e comecei a entender a paixão por aviões de
Altair Coelho, um gaúcho de Pelotas, engenheiro-inventor de
70 anos, que há meio século se diverte imaginando formas de
flutuar nos céus do Rio Grande do Sul.
Formado em engenharia mecânica na Alemanha, brevetado desde
1950, aos 16 anos e voando desde os 14, Coelho já decolou em
planadores, girocóptero, hidrogiro anfíbio e nos dezoito
aviões projetado e construído por ele. O repertório de
pardal começou muito antes de ser engenheiro com o
girocóptero - máquina com rudimentos de asa sustentada por
hélice. A primeira decolagem, tentada na cidade gaúcha de
Livramento, limítrofe de Rivera, no Uruguai, foi
inesquecível. Como o girocóptero não tinha motor, a
decolagem foi a reboque de um Fusca, preso a uma corda que
seria solta por um amigo, após a operação. Quando o aparelho
saiu do chão o amigo incrédulo extasiou-se e aos gritos de
... "voou"... largou a corda antes de atingida a altura
suficiente e o girocótpero desabou. Mas tudo ficou no susto,
Coelho motorizou a sua primeira nave fez outros vôos de
cinco minutos com sucesso.
Em seguida veio o primeiro aeroplano, impulsionado por um
motor VW 1200 preparado, também construído em Livramento,
mas voou de contrabando, numa pista uruguaia. Tudo porque
autoridades da aviação brasileira vetaram o avião, exigindo
que a fuselagem tivesse um parafuso de bronze a cada duas
polegadas. Embora essa história tenha acontecido há 45 anos,
Coelho ainda zomba da exigência lembrando que o seu
aviãozinho aumentaria muito dos 228 quilos e não sairia do
chão. Quando Altair foi para a Alemanha ("a convite" da
revolução de 1964, que via na sua condição de ex-presidente
da UNE um perigoso ativista contra o golpe) já tinha criado
quatro objetos voadores.
Altair voando o seu AC-11 Abriu a
série com o AC-1 (Altair Coelho-1) - um girocóptero com
jeitão de brinquedo - de fuselagem em tubo de aço,
amortecedores rígidos, freios de motocicleta, motor VW 2100,
75 hps, 3,10 metros, de 162 kg e velocidade cruzeiro de 120
km/h. Decolou em 1960 e voou 150 horas antes ser de
desmontado para aproveitar peças. O nonoplano AC-3 lembrava
o 14 Bis. Uma beleza de simplicidade feito em treliça
tubulares que pesava 130 kg voava até 130 km/h, no qual
Coelho gastou 1 600 horas para projetar e construir e voou
15 horas em 1963. Outra obra fantástica é AC-7, o "Thar-eco",
feito com sobras dos girocópteros. Um monoposto no qual o
piloto ficava exposto atrás do painel de instrumentos e que
tinha a cauda e leme ligados por tubos, sem fuselagem. Foi
um modelo que realmente propiciava a sensação de voar.
Também faz parte das invenções de Coelho um hidrocóptero,
estranho anfíbio que decolava rebocado por lancha e depois
foi motorizado. Ao todo ele construiu 14 AC, - O 16º está na
linha de montagem no seu estúdio - e vários desses engenhos
figuram na Enciclopédia da Aviação Brasileira e na similar
norte- americana.
Altair Coelho não é exatamente loquaz, mas trai-se pelo
entusiasmo quando fala do Brasinha, do Ludic, ou do Guapo,
Vega e Aragano, os AC modernos que ele batizou como filhos
que nunca teve. Comenta-os com carinho e às vezes escapa
certa onipotência pelo orgulho de ter dado vida àqueles
seres alados. No ar Coelho é silencioso. Passa a impressão
que o roteiro é decidido pelo avião, tal a cumplicidade
entre criador e criatura. Estar no céu é a sua praia.Mas,
projetar e construir um novo avião é a maior realização, e o
primeiro vôo o desafio mais esperado.
"É igual a uma noite de núpcias, porque nunca se sabe o que
vai acontecer", compara Coelho. Para ele, a expectativa
atiça o gozo, mas basta que seja bom pros dois, para que
volte o desejo de partir imediatamente para o outro projeto
que está já na cabeça. É essa atração que mantém Altair
Coelho ativo. Só voa nos seus aviões e está sempre
construindo um novo modelo e com outro projeto por começar.
Suas obras são personalizadas, mas não é egocêntrico. Abre
seus projetos, não faz segredos da técnica, tanto que cedeu
o projeto do AC-15 para oito amigos construírem
simultaneamente. Sua paixão pelos aviões experimentais
levou-o a projetar e adaptar motores de automóvel para
baixar o custo da fabricação - um V6 original custa em torno
de 65 mil dólares. E mais, o Guapo -AC-15 - vai ser enviado
para a Internet, com todos os detalhes do projeto para quem
se interessar possa cloná-lo e construir seu próprio avião.
Mas, como todo gênio, Altair Coelho também têm suas
idiossincrasias. Jamais usa computador, só a calculadora.
Sabe de cor as 48 operações do cálculo de uma longarina das
asas, mas esquece o número do telefone. Nunca chega à beira
de uma sacada porque detesta altura e refuga passar sobre a
prancha de um barco para o cais. Não têm superstições e
garante que a ausência de um modelo AC-13 na sua coleção de
aviões é mera gozação. Faz poucas concessões e parece seguir
a filosofia do poeta Mário Quintana que garante em verso...
"Que tudo o que atrapalha a minha preguiça, atrapalha meu
trabalho". Deixou de trabalhar na Volkswagem porque tinha
que ir a São Paulo. Não vai ao centro de Porto Alegre e não
entra em banco há 20 anos. Mora numa das ilhas do Guaíba,
mas proíbe que revele o endereço. Não compra roupas - a
mulher que faz esse trabalho - ele só compra peças de avião,
mas não sabe quanto custou nenhum dos que construiu. "Se
fizesse orçamento viraria trabalho e estragaria o meu hobby.
Sou aposentado e quando preciso de dinheiro vendo um avião
para construir outro", explica Coelho.
É considerado pela agência americana USA-Air uma das cem
personalidade mundiais que mais influíram na aviação, mas
negou-se a comparecer ao banquete oferecido por George Bush,
em Paris, na comemoração do centenário do vôo dos irmãos
Wrigth. "Meu smoking está apertado", debochou.
A grande paixão de Altair Coelho é mesmo pela aviação
experimental.Um arrebatamento que ele explica mostrando como
essa ciência está à frente da aviação geral. "Com o um motor
igual, nós voamos mais do que dobro da velocidade dos aviões
convencionais. Outro exemplo: meu AC-15 tem uma envergadura
de asa de 6,25 metros, enquanto um Cesnna, ou mesmo o
teco-teco Paulistinha, chega aos 11.
Altair não gosta de falar em acidentes. Levou poucos sustos
nas 8 mil horas voadas, entretanto admite que para saber a
verdade num acidente, deve-se falar com o piloto no primeiro
segundo, ainda tonto, porque no minuto seguinte, ele já tem
uma versão conveniente. A mulher Rosemary há 20 anos não voa
mais com Altair. Desde a viajem em que quebrou o cano de
escape do avião e a fumaça invadiu a cabine. Noutra ocasião
foi dar uma volta num hidroavião anfíbio com o amigo Paulo
Machado, médico traumatologista e colega de aeroclube, e tão
logo fizeram a primeira curva o motor tossiu. Olharam-se
desconfiados, mas logo concluíram que um pensou que o outro
tinha abastecido o avião. Obrigaram-se a uma aterrissagem
forçada, mas o resultado, além das escoriações, limitou-se a
uma "junta homocinética" - que é como Coelho batizou a
prótese implantada por Machado no fêmur da sua perna
direita.
Altair não foi à guerra, mas teve um girocóptero abatido a
tiros certeiros na asa e hélice numa fazenda na cidade Dom
Pedrito. Tudo porque o capataz não achou graça em ver aquele
aparelho esquisito espantar o gado e descarregou o seu
revólver calibre 38 no girocóptero. Coelho escapou ileso e o
avião foi rebocado por vacas até a cidade. Perigos mesmo,
ele acha que correu durante os seis anos em que competiu nas
motos, com uma BMW 650. Sofreu 21 acidentes, a maioria fora
das corridas, nas ruas. Mas e mesmo o avião o excita por ser
um bicho que nunca é totalmente domado. Bem diferente do
automóvel que um dia se consegue botar o pé no fundo, e
daí...
Por tudo isso o céu é o lugar justo para Altair. Um nome que
em árabe significa pássaro que voa e é a estrela alfa da
constelação da Águia. Um achado que ele materializou no leme
de todos os seus aviões, estilizado em forma de estrela
brilhante."É minha estrela guia", celebra Altair, também
chamado de Alt-air, no trocadilho carinhoso dos parceiros de
terra e ar. Lemyr Martins -
www.altaircoelho.com.br
Todos os aviões construídos e os que estão em
construção podem ser vistos no site do construtor. É
inquestionável os serviços prestados pelo engenheiro
Altair Coelho e seu amigo Renan a
aviação brasileira. |